05/11/2023

No rico bairro de Mayfair, em Londres, a Gallery Fumi – um espaço de design contemporâneo – apresenta uma nova coleção de veis. Isso não seria surpresa se não fosse o material incongruente com que essas cadeiras e mesas são feitas: papelão.

A “Box” foi projetada pelo designer de móveis britânico Max Lamb e utiliza caixas de papelão que foram sendo construídas em seu ateliê. “Acho muito difícil jogar coisas fora”, disse ele, sentando-se em uma de suas criações. Ele encontra beleza, acrescentou, “no lixo, ou em coisas que já existem e já foram descartadas”.

Embora seja um dos materiais mais baratos disponíveis e muitas vezes descartado, o papelão é cada vez mais utilizado para criar móveis sofisticados e acessíveis. Enquanto vários designers experimentam o material para criar peças provocantes, outros aproveitam seu potencial como uma opção aparentemente sustentável para mobiliar sua casa.

Lamb cortou, dobrou, montou e estratificou caixas de papelão, e também utilizou o material para criar camadas de papel machê. O resultado é uma coleção intrigante de móveis, que mantém elementos da estética das caixas de papelão – formas cubistas e logotipos de embalagens – mas os desenvolve com moldagens esculturais inesperadas, composições e tintas terrosas.

Apesar da percepção do material como frágil, as peças foram projetadas para resistir ao uso prático. Sua força resulta da maneira como Lamb construiu camadas de papelão ondulado – o tipo mais resistente a impactos – e usou uma mistura semelhante a cola de trigo e água.

O novo trabalho de Lamb se encaixa em uma história contínua de móveis de papelão, com um exemplo icônico sendo a “Wiggle Side Chair” de Frank Gehry, de 1972, parte da série “Easy Edges” que o arquiteto projetou e que abraçou a força inesperada e o potencial escultural do papelão ondulado em camadas. Quando estudante, Lamb se inspirou nos trabalhos de Gehry em papelão e, posteriormente, criou uma mesa de papelão em 2000 que, segundo ele, seus pais ainda usam.

Mais recentemente, outro arquiteto famoso recorreu ao material para fazer móveis. Tendo utilizado papelão em projetos arquitetônicos inovadores, Shigeru Ban utilizou-o para criar a sua coleção “Carta” (1998 – 2015). Ban projetou cadeiras, um banquinho, uma chaise longue e uma mesa com finos tubos de papelão que foram tratados com resina para torná-los à prova d’água, mas combinou-os com materiais mais tradicionais, incluindo compensado de bétula e vidro.

Desde 2020, o artista e designer ucraniano Illya Goldman Gubin, radicado em Berlim, tem reforçado caixas de papelão disformes usando resina e fibra de vidro e transformando-as em assentos, mesas e prateleiras incomuns. A série “Karton” em andamento começou após a pandemia de Covid-19, quando Gubin passou a experimentar criações que confundiam os limites entre arte e objetos funcionais.

“Eu queria adicionar uma nova dimensão à minha arte, algo mais acessível, que as pessoas pudessem tocar sem precisar de permissão”, explicou ele.

Gubin tem “boas lembranças” de brincar com caixas de papelão quando criança, construindo casas e carros de brinquedo. “O papelão parece simples, mas especial”, disse ele. “Todo mundo já teve uma caixa de papelão nas mãos. Agora, eu queria que essa mesma caixa tivesse um novo propósito: nos apoiar”. Gubin gosta de descrever a ideia por trás do projeto como: “o que antes carregávamos, agora pode nos carregar”.

Cada uma das peças é única; ele usa o peso de seu próprio corpo para moldar caixas em vários formatos amassados. Embora pareçam esculturas brilhantes, as caixas funcionam perfeitamente como assentos ou mesas. “Mesmo que (as peças) pareçam delicadas, elas são fortes”, explicou Gubin. “Eu queria fazer algo que surpreendesse o observador”.

Passando do provocativo ao prático, a marca Room in a Box – fundada em 2013 – oferece móveis de papelão simples e modulares para compra, considerados acessíveis e bons para o planeta. Utilizando papelão ondulado de alta qualidade, a marca alemã promete que suas peças – de estrados de cama a cadeiras e mesas – podem durar até 10 anos.

Room in a Box chamou a atenção por meio de postagens no TikTok no ano passado, onde vídeos relacionados a móveis de papelão já têm mais de 2,4 milhões de visualizações. A marca apela a um público jovem que se movimenta e necessita de opções leves e facilmente transportáveis, mas não gosta do impacto ambiental dos “móveis descartáveis”.

O cofundador Gerald Dissen disse à CNN que as peças da Room in a Box são muito mais sustentáveis do que móveis em materiais tradicionais, citando menores pegadas de carbono e menor consumo de energia devido à natureza reciclada e reciclável de seu material, construção leve e formato modular.

Mas essas qualidades também tornaram o papelão uma escolha popular quando se trata de colocação de mobiliário de emergência, especialmente para refugiados. Em 2011, os designers franceses NOCC, com o empresário Julien Sylvain, criaram a Leaf Bed, uma cama de papelão projetada para ser usada por pessoas em campos de refugiados.

Com um design simples de painéis pré-cortados que são enviados com todas as ferramentas e peças necessárias para a montagem, a cama de acampamento foi implantada pela Agência da ONU para Refugiados.

Um fabricante de papelão envolvido na produção da Leaf Bed, a Smurfit Kappa, também colaborou com a Edinburgh Direct Aid (EDA) em 2017 para enviar ajuda aos campos de refugiados na fronteira entre o Líbano e a Síria em caixas de papelão que poderiam ser convertidas em móveis de emergência.

No dia a dia, o papelão é usado como abrigo de emergência para onde quer que olhemos. “Vemos papelão nas ruas; vemos pessoas usando-o como um material isolante e protetor”, disse Lamb, reconhecendo como esse uso contrasta com seu trabalho. “Aqui estou apenas fazendo móveis para uma galeria”.

Embora suas obras possam ser peças de design colecionáveis (os preços só estão disponíveis mediante solicitação), ele diz que o projeto é uma reflexão crítica sobre ser “um produtor de coisas” e espera que demonstre “a beleza e a permanência” do papelão como um material. “Pode ser uma parte permanente de nossas vidas”, disse ele. “Não precisamos descartar coisas que são secundárias em relação àquilo que mais compramos ou valorizamos”.

Fonte: CNN